Autora de seis livros e criadora do primeiro blog do país sobre look do dia, Cris Guerra, à frente do podcast “50 crises”, junta-se à Localiza Meoo para falar de um tema que você precisa ler: as fases da vida e o impacto da idade nas nossas escolhas. Do nascer ao envelhecer, fases que parecem distantes entre elas, mas que levam ao mesmo caminho – novos começos.

 

Um brinde à vista cansada

Localiza Meoo me convidou pra falar sobre um assunto que eu amo: a nova longevidade. Porque a vida é uma estrada – que ficou mais comprida nos últimos anos –, e conhecê-la bem faz a viagem ser muito melhor.

 

Eu devia ter em torno de 45 anos, e meu filho, uns 9. A pergunta do dever de casa era sobre o ciclo vital. “Essa, eu sei!”, disse Francisco, animado. “Nasce, cresce, reproduz, envelhece e morre!” Aquilo acabou comigo. Fui fazendo um checklist rápido: eu já tinha nascido, crescido e reproduzido, só restava envelhecer e morrer. Já reparou como a gente coloca essas duas palavrinhas no pior lugar?

 

 

Pois é, estou mesmo na quarta fase do ciclo vital. A diferença é que essa fase, hoje, costuma ser mais longa, mais transformadora e muito mais interessante. Pode ser uma segunda e maravilhosa vida adulta, e ela depende das nossas escolhas. E é melhor pensar nisso rápido, pra acompanhar as mudanças que a própria longevidade já mostrou, mas a gente não vinha prestando atenção.

 

Basta uma voltinha pela cidade ou pelas redes sociais pra reparar que as mulheres de cabelo branco estão por aí, lindas, felizes e ativas. Elas não usam mais vestido florido nem estão necessariamente cuidando de algum netinho. Essa é a primeira descoberta: não existe um envelhecimento, existem vários. Acontece que a gente aprendeu a colocar tudo numa caixinha só, como, aliás, a gente costuma fazer com todo o resto. Somos viciados em contar histórias únicas sobre as pessoas que mal conhecemos, e assim vamos enrijecendo nossas ideias sobre elas e sobre a vida. E aí mora a pior acepção da palavra envelhecimento: o enrijecimento das ideias. Não é preciso viver muito para fazer isso. Conheço muita gente jovem agarrada às suas convicções e fechada para o novo.

 

Envelhecer não é sinônimo de se desatualizar, embora muitos insistam em enxergar assim, provando, eles mesmos, a sua dificuldade de se atualizar. Completar 50, 60, 70 anos não é metamorfosear-se em outra pessoa. Sabe aquele que vive dizendo “no meu tempo as coisas eram diferentes”? Esse, sim, faz da desatualização uma escolha de vida. Não quer viver no tempo de hoje, prefere se agarrar ao que já passou. Mas essa não é uma característica inerente aos mais velhos, e sim um traço de nostalgia que tem a ver com a dificuldade de se adaptar às mudanças. Pode acontecer com os mais jovens também.

 

Charles Darwin nos ensina que não sobrevivem os mais fortes, e sim os que melhor se adaptam. Melhor a gente se adaptar logo a um fato importante: a nossa pirâmide etária está se invertendo. A expectativa de vida aumentou cerca de 35 anos nas últimas cinco décadas. Em 2050, o número de pessoas com 65 anos no mundo vai triplicar. Vamos ter mais velhos do que jovens. Vamos, sim, viver mais, e isso não depende da nossa escolha. Mas depende de nós viver melhor, começando por encarar esse fato de frente, com seus ônus e bônus. Estudos indicam que envelhecem melhor os que assumem que estão passando para a idade madura – o que, aliás, é outra nomenclatura. Está claro que envelhecer também não é garantia de amadurecimento. Envelhecer é resultado inevitável do tempo. Amadurecer, não. É uma escolha. Uma escolha que passa pelo reconhecimento do privilégio que é colecionar experiências, repertório, sabedoria. E deixar para trás, de uma vez por todas, a ideia de que o melhor jeito de envelhecer é não envelhecer.

 

O tempo passa, independentemente da nossa vontade. Mas depende da nossa vontade atuar sobre a nossa forma de estar nesse tempo. Posso me tornar uma velha moderna, atualizada e, sim, madura e lúcida, se começar a construir isso desde já. Ou você pode ser um jovem ranzinza e delirante se decidir se alienar da realidade e ficar ligado ao passado.

 

Mas, afinal, de onde vem essa ideia arraigada sobre o envelhecimento? E quando é que a gente começa a envelhecer? Já começo respondendo à segunda pergunta: estamos envelhecendo desde sempre. Mas o que marca o envelhecimento diante da sociedade é o momento em que deixamos de ser produtivos. E isso tem acontecido cada vez mais tarde, porque trabalhar e produzir também contribuem para uma vida feliz, com mais propósito e mais sentido.

 

 

A aposentadoria, por exemplo, foi ideia de um alemão, o chanceler Bismarck, em 1881. Naquela época, em que a expectativa de vida na Alemanha girava em torno dos 46 anos, era natural perceber que os trabalhadores de fábricas que estavam chegando aos 60 já não conseguiam produzir como antes. As atividades eram, em sua maioria, bem mais exaustivas. Fazia sentido pensar que depois dos 60 era obrigatório descansar ou, como a palavra aposentar-se sugere, retirar-se, ir para os aposentos. Veja você que palavra infeliz. Em outras palavras, o conceito de aposentadoria parece nos tornar invisível.

 

Hoje, 140 anos depois, ainda enxergamos o envelhecimento com a mesma lógica. Ainda que a expectativa de vida no Brasil esteja em torno dos 73 anos, ou seja, quase 30 anos a mais do que o índice da Alemanha na época. Estamos vivendo mais, com mais qualidade, melhorando nossos hábitos e mantendo a produtividade. E essa produtividade pode ser um gerador de saúde. Aposentar-se deve continuar sendo um direito, sim. Mas jamais pode ser uma obrigatoriedade nem motivo de discriminação.

 

Em 2020, em plena pandemia, eu completei 50 anos. Aliás, estou naquela idade em que as pessoas deveriam fazer a delicadeza de usar um crachá. E precisa ser em letras grandes, por favor. Rótulos e bulas de remédios ficaram ilegíveis, a memória não consegue mais guardar todos os nomes. Mas isso não tem a ver só́ com o envelhecimento, não. Conheço muito adolescente que não sabe de cor um número de telefone. Todos convivemos com tanta informação, que os nativos digitais hoje guardam até a memória deles na nuvem. Em compensação, quem já passou dos 50 resolveu guardar só́ o que importa.

 

A gente finalmente entende o que quer para, enfim, começar a viver. Aos 51, estou muito mais prática. Finalmente sei escolher as batalhas que valem a pena. Aprendi com o tempo (e com a minha contadora) a optar pelo simples. Uma espécie de aprimoramento da capacidade de discernir as coisas. Sou capaz de mudar de opinião com um pé́ nas costas – não literalmente, claro. Em que outra época eu teria esse humor? A vida está mais leve e menos dramática – dramas estão muito mais relacionados às primeiras vezes.

 

Envelhecer não é assumir outra personalidade, e sim apurar a sua própria. Eu diria que o envelhecimento, se encarado de forma madura, é o momento em que atingimos o auge de nós mesmos, do ponto de vista mental e psicológico. Faça uma pesquisa e você verá. Os ganhadores do Prêmio Nobel têm, em média, 62 anos. Os presidentes das grandes empresas também estão nesta média de idade.

 

Foi beirando os 40 que eu virei escritora, palestrante, empreendedora, depois de duas décadas como redatora publicitária. Virei autônoma e empreendedora. Aos 50 criei um podcast, escrevi um livro infantil e estou com meu oitavo livro no forno. Faz dois anos que assumi o cabelo grisalho e foi libertador. Foi como colocar o rosto na janela pra sentir o vento do envelhecimento, em vez de ficar fugindo dele. O tempo passa, sim. Pra todo mundo, o tempo todo. Envelhecer não significa não poder mais fazer as coisas, mas também não é a certeza de que eu posso tudo. Nunca pude. Mas eu não troco meus 50 pelos meus 20. Não mesmo.

 

Acho que a vista cansada é uma gentileza até nesse aspecto: a gente aprende a focar o que realmente importa. O que envelhece mesmo é essa obsessão pela juventude.

 

Para fazer como a Cris Guerra e viver uma experiência mais leve, prática e econômica de ter um carro novo, não deixe de acessar o nosso site. Venha fazer valer com a gente!

 

Você também pode se interessar por: